sábado, 8 de outubro de 2016

A palavra que mudou a carreira de Tite:

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Em julho de 2010 este que escreve foi surpreendido com um comentário em seu blog à época assinado por Adenor Tite. Pelo endereço do e-mail que era obrigatório no site, pesquisei com colegas para saber se era mesmo o do treinador, que ainda estava no “mundo árabe” e só chegaria em outubro para comandar o Corinthians.

Desde então trocamos e-mails sobre impressões táticas, conceituais. De seus times ou de equipes no exterior. Nunca pedi seu telefone e sempre respeitei quando não quis ou não pôde responder. Sem jornalismo “brodagem”, sem vínculo além da fonte. Pessoalmente, apenas dois contatos. Duas entrevistas exclusivas.

A primeira em outubro de 2012, para o site da ESPN Brasil. Antes do embarque para disputar o Mundial Interclubes. Outra em dezembro de 2015 para o Esporte Interativo, pouco depois da conquista do título brasileiro.

Uma constatação é óbvia. Para todos com quem trabalhou, os colegas de imprensa e inclusive consta em sua biografia, escrita brilhantemente pela Camila Mattoso, são dois treinadores bem diferentes.
Na primeira entrevista, um profissional mais concentrado a disciplina tática, focado em fazer seus comandados entenderem suas instruções que mudavam um paradigma brasileiro, saindo das perseguições individuais e marcando por zona. Com linha de quatro atrás e os laterais funcionando primeiro como defensores.

Preocupado com o então hipotético confronto com o Chelsea na decisão, garantindo que sua equipe sairia para o jogo, o que de fato aconteceu até abrir o placar. Porém nas respostas era nítido que o primeiro objetivo era anular as virtudes do adversário.

Depois da conquista histórica, um 2013 bem abaixo e veio o ano sabático. De estudos e espera para assumir a seleção brasileira após a Copa do Mundo. Frustração, depois mais estudos e a volta para o Corinthians.

Na segunda entrevista, uma clara mudança. Não só pela leveza do título já conquistado em vez da tensão anterior à disputa, mas principalmente pela visão de futebol. E uma palavra que não apareceu no papo anterior surgiu para nortear todas as novas ideias.

Criatividade. Tite percebeu que a fase de organizar e mudar conceitos táticos havia passado. Era preciso evoluir naquilo que não se quantifica mas faz tudo fluir. E o melhor: surpreende o adversário.
O Corinthians de 2012 sabia negar espaços na recomposição, fazer os movimentos coletivos, pressionar a saída de bola e roubar no campo de ataque. Mas era engessado. A proposta era ofensiva, mas previsível se bem estudada pelo rival. Não encontrava muitas soluções além da bola parada e do jogo aéreo. Por isso os poucos gols, os muitos empates.

Com a criatividade, a ideia de fazer Jadson sair da direita e circular às costas dos volantes do oponente. Trocar passes, triangular, criar o espaço vazio e alguém infiltrar. Fazer as peças girarem sem tanta preocupação com o momento da perda da bola.

Se perder pressiona no momento seguinte e tenta tomar. Se não conseguir tenta atrasar a transição ofensiva do oponente e se reorganiza. Corre riscos, mas também tira o conforto do outro lado.
É o que transformou a seleção brasileira além da nova gestão de grupo mais sensível e humana. Das três vitórias, dos dez gols marcados e apenas um sofrido. Que pulou da sexta colocação para a vice-liderança das Eliminatórias e pode assumir a ponta já na próxima rodada, se vencer a lanterna Venezuela e o Uruguai não conseguir os três pontos diante da forte Colômbia.

Apesar da excelência de Jadson, Elias, Renato Augusto, Fagner, Uendel, Love e Malcom na conquista do Brasileiro pelo Corinthians, agora o material humano obviamente é superior. Tite tem Neymar, uma máquina de criatividade.

O camisa dez parte da esquerda para não perder a “memória tática” que o técnico sempre menciona. Mas roda todo o ataque para servir ou finalizar. Trabalhar coletivamente. Criar. Esta ideia também explica por que Coutinho ganhou a vaga de Willian. Articula e pensa mais. Como todo o time.
O Brasil mais inteligente e brilhante é mérito dos jogadores, mas principalmente do incentivo de um treinador que soube se reinventar. Não olhar apenas para o que deu certo no passado, como muitos de seus colegas que pararam no tempo.

Mira o futuro que parece cada vez mais promissor. Que não está garantido, precisa ser construído, treino a treino, a cada jogo. Sem oba oba. Com criatividade. A palavra que mudou a carreira de Tite.

         

Blog André Rocha

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